quinta-feira, 30 de junho de 2011

Brinquedo torto.

Era uma vez uma casa que tinha vida.
Ela não se mexia, nem bebia, nem comia, nem respirava, mas observava e sentia. Era uma casa muito antiga e precisava de cuidados especiais, pois todas as famílias que já haviam morado lá brigavam constantemente, causando-lhe tristeza e fazendo-a aparentar ser muito mais velha do que era. Estava quase em ruínas. 
 Um dia, uma jovem adolescente chamada Déborah começou a viver nesta casa. Ela era uma garota meiga, cheia de vida, bondosa e se exibia com seus olhos azuis, cabelos castanhos levemente ondulados e sua pele negra brilhante. Sem intenção, Déborah descobriu que nessa casa tinha uma pequena porta que seria passagem para um lugar, sendo este o “coração de uma ‘pessoa’ que viveu um longo tempo no inverno sem cuidados especiais” – mas ela não sabia disso.  
Nessa porta, pouco iluminada, tinha trepadeiras que brotavam rosas negras ao seu redor, na parede, e uma placa de madeira mofada em cima que dizia “Liberte-me”. A garota, segura e curiosa, entrou e foi engatinhando até chegar a uma parte mais alta – em que conseguiu ficar de pé – e olhou em volta.  Estava em um lugar gigante, parecia uma mansão velha com algumas tralhas, era frio e assustador. Das janelas entrava pouca luz e não se via o fim daquele cômodo. No meio de seu encantamento com a amplitude daquela casa, Déborah ouviu um barulho – como uma cadeira velha balançando. Olhou ao lado e se assustou com uma senhora que se balançava lentamente na cadeira de madeira. Ela estava muito séria; mesmo com pouca iluminação, podia-se ver que ela tinha olhos claros, – que estavam esbugalhados – que muita flacidez atacava seu rosto e braços, seus cabelos eram longos e grisalhos. Ela parecia estar bastante cansada. Olhou para a garota e disse sem emoção alguma:
– Receio que esperei todo esse tempo por você.
– Por que a senhora está aqui? Como entrou? Desde quando? – metralhou perguntas, pois estava preocupada, mas a senhora continuou olhando a garota em silêncio, sem nem piscar os olhos.
– Está com algum problema? Quer que eu a tire daqui? – voltou a perguntar. A velhinha levantou e andou para a direção contrária de Déborah, ignorando-a.
– Siga-me. – Ela ordenou e a garota obedeceu.
Andaram, andaram, andaram e a lugar nenhum chegaram.  Andaram por bastante tempo até entrarem numa sala totalmente escura. Déborah estava cega. Hesitou andar até ser puxada com força, fazendo-a não andar, mas correr. Ficou com medo. Correr no escuro com uma velhinha assustadora que nunca havia visto antes, definitivamente, não era bom. Correu por poucos segundos e até flutuou por um milésimo, depois foi caindo. Caiu em um sofá velho empoeirado que a fez tossir muito. Olhou para frente e a senhora estava parada ao lado de uma mesa, olhando para ela. Como havia ela feito isso? Essa nova sala não era grande como as outras e no fim, tinha uma porta fechada, que entravam luz por baixo e algumas janelas pequenas que também deixavam o mínimo de luz entrar, fazendo a salinha ficar pouco iluminada como as outras. Aquela porta... Era a saída?
– Déborah... – ela chamou, fazendo esforço para sua voz rouca e cansada sair, esperando algo.
– Como você sabe meu nome? – a garota se assustou ainda mais, desejando fugir dali e só voltar cm ajuda. Levantou do sofá e andou lentamente em direção à porta. Mas quanto mais tentava se aproximar da porta, mais ela parecia distante. Rapidamente desistiu.
– O que quer? – perguntou, segurando as lágrimas. A senhora apontou para a caixa escura detalhada que estava trancada em cima da mesa, e nela tinha escrito “Liberte-me”.
– No seu bolso. – disse e Déborah tirou algo do seu bolso. Uma chave altamente elaborada que nunca havia visto antes.
Arrastou a caixa pesada para perto e trêmula, abriu-a. Um vento gelado saiu da caixa e a garota sentiu calafrios; a caixa estava vazia. Quando olhou para a senhora, esta estava no chão, fraca... Morta? A garota inocente só fez o que lhe pediram, com boas intenções. Déborah correu para a porta, chorando, desesperada querendo ajuda. A porta não fugia mais. Ela saiu e se viu do lado de fora da casa, mas na frente da casa e lá mesmo ficou chorando. Alguém pôs a mão em seu ombro e ela gritou com medo e assustada.
– Acalme-se, eu não morri. – disse uma linda mulher e depois a abraçou. Obviamente, a garota não estava entendendo absolutamente nada e nem conseguia perguntar por causa de seu choro inacabável, mas a mulher sabia que teria que explicar.
– Eu sou a casa. Bem... O espírito da casa, seus sentimentos. Na verdade, um deles. – tentou explicar e a garota a olhou sem entender mais ainda.
– Hã? – foi a única coisa que a garota conseguiu proferir com “sucesso” em meio as lágrimas.
– Essa não é uma casa normal, como pôde perceber. Ela tem vida e seus sentimentos são expressos através de mim. Pode não ter percebido, mas o que a casa estava querendo mostrar era o amor... A falta dele.
Déborah havia se acalmado e parecia estar entendendo. Então perguntou:
– Mas... Porque eu? E o que aconteceu com aquela senhora?
– Você é uma adolescente incrível e feliz. Precisava cuidar da casa com o seu amor e libertá-la do inverno da falta do mesmo. E eu sou aquela senhora. Estive com aquela aparência pela falta de cuidado das pessoas comigo.
A garota ficou em silêncio e olhou para a casa, que não estava mais parecendo uma casa abandonada.  Estava bonita e parecia ser até mais nova do que era.
– O que tinha naquela caixa? – era a última pergunta de Déborah.
– Coisas ruins. Lá estavam presas todas as brigas de famílias e de pessoas que se amavam. Você fez tudo isso se dispersar, fazendo a casa não lembrar de todo rancor e mágoa que sentia. Você já sabe, trouxe o amor para cá.
A garota entendeu completamente, mesmo parecendo confuso, tanto o que aconteceu, como o que pode ser aquele sentimento indefinível. Claro que era surreal e estranho o que havia acontecido com ela, porém ela aprendeu que o amor é como o melhor brinquedo da sua infância, quando quebrado, te deixa triste, mas quando funciona, é divertido e nada te deixa mais feliz. Mesmo sendo uma comparação um tanto infantil, não deixa de ter sua verdade.

FIM.

Nenhum comentário:

Postar um comentário